Libra: Os Desafios da Criptomoeda do Facebook em 2020

Libra: Os Desafios da Criptomoeda do Facebook em 2020

Tem sido uma viagem atribulada!

Desde o seu anúncio, a Libra já enfrentou diversos problemas e parece longe de encontrar paz.

A criptomoeda do Facebook conta com a oposição de Governos, a incerteza da regulação e até o abandono por parte de fundadores.

Face a toda estas incertezas, o otimismo em torno do projeto tem vindo a desvanecer-se. Mas, há razões para alarme? Está a criptomoeda do Facebook em apuros?

Neste artigo poderás perceber quais as principais ameaças ao projeto da Libra Association, o que esperam os reguladores e como o anúncio da Libra pode já estar a ter impacto em todo o mercado das criptomoedas.

1. A Primeira Baixa

A PayPal tornou-se oficialmente o primeiro membro a deixar a Libra Association, anunciando, num comunicado, que iria focar-se o seu próprio negócio, ainda que deixando a porta aberta para parcerias pontuais:

“Vamos continuar a apoiar as aspirações da Libra e esperamos manter um diálogo continuo sobre formas de trabalharmos juntos no futuro.” 

Comunicado da PayPal

A empresa de pagamentos acrescenta ainda que ambiciona democratizar o acesso a serviços financeiros por parte de populações mais carenciadas, algo que também estava inerente à missão da Libra, mas que passará assim a fazer pelo próprio pé.

Fundadores Associação Libra
Lista inicial de fundadores da Libra.

A Libra Association não demorou a reagir à saída de um dos até agora fundadores do projeto, não escondendo o amargo de boca e relacionando a saída com os desafios da mudança do sistema financeiro:

“O tipo de mudança que irá reconfigurar o sistema financeiro para que seja focado nas pessoas, e não nas instituições que as servem, vai ser difícil. O compromisso com essa missão é para nós mais importante do que qualquer outra coisa. Preferimos antes saber já desta falta de compromisso do que mais tarde.”

Comunicado da Libra Association

Não é por acaso que a Libra Association menciona estes desafios. A Libra obriga a romper com o status quo e algumas empresas podem não estar dispostas à exposição que isso obriga.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos tinha pedido no verão à PayPal uma análise aos seus programas contra lavagem de dinheiro, alegando ainda preocupação sobre a forma como as empresas fundadoras iriam proteger a privacidade dos utilizadores da Libra.

Dan Schulman, CEO da PayPal
Dan Schulman, CEO da PayPal.

Mais recentemente, o CEO da PayPal, Dan Schulman, recusou ter saído do protejo devido ao escrutínio dos reguladores e acrescentou que a decisão foi tomada porque a empresa acredita que conseguirá contribuir mais rapidamente para a inclusão social nos pagamentos se seguir o seu plano de desenvolvimento sozinha, já que a Libra tem ainda vários desafios pela frente.

Na mesma entrevista, o CEO da PayPal admitiu ainda possuir criptomoedas, mas apenas de uma variedade – nem mais do que a Bitcoin.

2. As Desistências Que se Seguiram

Ainda antes do anuncio oficial da PayPal, já o Finantial Times anunciava que dois fundadores do projeto poderiam estar de saída. Mais tarde, confirmava-se o abandono da PayPal.

Após a saída do primeiro parceiro da Libra Association, o Wall Street Journal noticiava a possibilidade de outros dois fundadores do mesmo setor estarem também a ponderar deixar o projeto.

Quem seriam então?

Nem mais nem menos do que a Visa e a Mastercard, os dois gigantes do setor dos pagamentos.

Mastercard e Visa podem deixar criptomoeda do Facebook
Mastercard e Visa deixaram desenvolvimento da Criptomoeda do Facebook.

O porquê destas repentinas decisões?

De acordo com a mesma publicação, a justificar a hipótese estaria o receio de que Governos e reguladores se mostrassem ainda mais relutantes em relação à Libra e acabassem também por escrutinar as suas empresas.

O Presidente da Visa, Alfred Kelly, explicou mais tarde que a participação dos vários membros da Libra Association era apenas “provisória”, sendo que a Visa “não é membro de nada” e que uma decisão final carecia ainda de confirmação, mediante fossem ou não cumpridos todos os requisitos regulatórios.

Mas espera, há mais:

Na sua notícia, o WSJ anunciava que existiam ainda mais parceiros a ponderar sair, sem que tenham sido avançados nomes adicionais.

Ora, onde há fumo, há fogo!

Ainda antes da reunião seguinte do conselho para o desenvolvimento da Libra, a maioria do parceiros do setor dos pagamentos e ainda a eBay anunciaram uma saída em bloco do projeto.

Desistências Libra
Da formação inicial, no setor dos pagamentos resta apenas a PayU.

3. A Ameaça da Regulação

Desde que foi anunciada, a Libra tem encontrado várias barreiras e opositores, sendo que a regulação é uma das principais dúvidas em cima da mesa.

Afinal, como seria esta criptomoeda regulada?

As possibilidades de a criptomoeda do Facebook vir a ser utilizada para financiar o terrorismo e para lavagem de dinheiro são duas das grandes preocupações.

Este tema já foi, inclusive, abordado pelo Diretor-Geral da Libra Association:

“Estamos a desenvolver com normalidade o trabalho com os reguladores para lhes mostrar que, no que diz respeito à lavagem de dinheiro, o sistema da Libra será pelo menos tão bom como o sistema monetário tradicional.”

Bertrand Perez, Diretor-geral da Libra Association

Recentemente, o Comissário Europeu para as Finanças considerou a Libra uma ameaça para a estabilidade financeira.

Valdis Dombrovskis disse, por isso, querer introduzir novas medidas para regular as criptomoedas:

“A Europa precisa de uma abordagem comum sobre ativos criptográficos, como a Libra. Pretendo propor nova legislação nesse sentido.”

Valdis Dombrovskis, Comissário das Finanças da União Europeia

Há 5 anos no executivo comunitário, Valdis Dombrovskis sempre resistiu a regular as criptomoedas.

No entanto explica que a Libra, por significar um risco sistémico, obriga a outro tipo de ação.

Libra criptomoeda
Libra vai enfrentar uma batalha pela regulação.

A Reuters indica ainda que a União Europeia quer levar o tema das stablecoins, em que a Libra se insere, a discussão no G20.

Estas posições estão em linha com a do Banco do Japão, que concorda que é necessária regulação urgente e apela à cooperação dos decisores de todo o mundo.

“Se a Libra avançar, terá um enorme impacto na sociedade.”

O Governador do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, explica, por isso, que é necessário avançar o quanto antes com uma proposta sólida para regular a criptomoeda do Facebook.

4. A Oposição dos Governos à Criptomoeda do Facebook

Na Europa, a oposição à Libra tem sido levada ainda mais a sério por alguns governantes, que acusam a criptomoeda de colocar em causa a soberania monetária dos países.

É o caso do ministro francês das Finanças, que recentemente abriu guerra à Libra, dizendo ainda que esta não deveria ser permitida.

Alemanha França Libra bandeiras
Alemanha e França estão alinhadas em relação à Libra.

À França, acabou por se juntar a Alemanha. Num comunicado conjunto, os dois países recusaram os moldes do projeto:

“Nenhuma entidade privada pode ter o poder monetário, que é inerente à solvabilidade das nações.”

França e Alemanha em comunicado

Mais recentemente, nos Estados Unidos, dois senadores enviaram diretamente cartas aos Presidentes da Visa, Mastercard e Stripe a pedir que as suas empresas retirassem o apoio ao projeto:

“É arrepiante pensar no que poderá acontecer se o Facebook combinar mensagens criptografadas com pagamentos globais anónimos através da Libra.”

Senadores Brian Schatz e Sherrod Brown

Os dois deputados ameaçam ainda que, caso as empresas não desistam da Libra, bem podem esperar um grande escrutínio, não só no que diz respeito à Libra, mas também a todas as suas atividades relacionadas com pagamentos.

5. Conclusão

A Libra tem o potencial de alterar a forma como lidamos com o dinheiro mas, para já, a concretização do projeto parece cada vez mais incerta.

A batalha regulatória que a criptomoeda do Facebook terá de enfrentar poderá até obrigar a uma alteração na sua data de lançamento, inicialmente prevista para junho de 2020.

O aparecimento da Libra poderá ter consequências ao nível da regulação para todo o mercado das criptomoedas, mas ainda é cedo para dizer ao certo quais.

Autor
Marcela Lima
Marcela Lima

Marcela conheceu o Bitcoin em 2012 e ficou fascinada com a tecnologia. Desde então tem estudado o potencial das criptomoedas e a forma como podem mudar a sociedade. Hoje divide o seu tempo entre a escrita e a gestão do seu portfólio, composto majoritariamente por criptomoedas e por ações.

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